sexta-feira, 1 de maio de 2020

Esse Maio!...


Há um Maio em sepulcros imaginados
A vitória espelhada nas solas de sapatos rotos
Que diz a história das ilusões desgrenhas
Das vitórias ao suor e à pele roubadas.

Nas ruas um mar de gente, que sentiu
No estômago a fome que rugiu
O medo, a morte dos mancebos
Desventradas as mulheres e os credos

Permite a dois mil e vinte a indecisão
Mas acredita que uma papoila é união.


sábado, 4 de abril de 2020

Poetas de Lisboa...


Poetas de Lisboa…

Vejo por aí os poetas, em letras de fraca ousadia.
Falam de Lisboa, de ruas sem vida, ironia!...
É esse estar sem passar, essa dormência sem ver…
As ruas desta cidade, o passado a acontecer.

Vejo por aí os poetas sem o intento que procurei.
Falar da cidade com luz em versos sem qualquer rei.
Limitada é a alma com receio do que não vê.
Nem as calçadas entendem; o porquê!

Vejo por aí os poetas, escrever dos sonhos em cruz.
Quando a morte ordena que o presente seja de luz.
E as ruas desta Lisboa, cheias de sombras sem vida.
Sejam o eco da esperança, na mais larga avenida.




quinta-feira, 20 de fevereiro de 2020

Poema sem nome…


Tu que falas e falas e negas a circunstância
Que inventas pretextos para esse olhar vago
Que gritas e pensas o não sem grande coerência
Que esperas do sol, ou da chuva de um dia frio.

Que esperas do amor, do clamor, da fragância
Que a água ao cair oferta mesmo que seja vazio
O tempo que levas na busca pela existência
Se esperas de mim, o que esperas de um rio

Que afogue a certeza, que cale a vontade
Que emudeça qualquer grito de revolta
Que te oiça e omita esta dúvida perene

Não sabes, ou finges muito bem essa insanidade
É o amor impulsor e a insensatez até se afasta
Quando nos atrevemos a enfrentar a verdade.





quinta-feira, 16 de janeiro de 2020

Sem que adivinhes…

Escuto Beethoven e leio o que escreves
ao sabor de uma clave.
Invento o teu mundo, numa, rima quente
invento o sorriso;
que me enche a alma
sem que saibas o prazer de ler…
Os teus dias.

Sei quando choras um amor eterno.
Quando cantas ao dia sereno.
Até quando partes sem olhar p`ra trás…
Sei tudo isso. Ou quero saber
sem que adivinhes que te estou a ler.



segunda-feira, 13 de janeiro de 2020

Cantilena absurda…


Não quero certezas, nem sequer o degredo
de um copo meio cheio.
Imperfeita e incompleta é a parcimónia
além da conta.
Corro conta o tempo, num frenesim inequívoco.
Esquivo e oco
é o grito que jorra da alma
sem temperança.
Escavado no sentir.
Apto a sorrir!

Ai!... Cantilena absurda
rufia e fantasmagórica.
Embala com leveza o eco
da minha voz.
Leva de vencida a saudade
e até a verdade imita a vontade
 de negar.

É em dias como este que inclino o olhar!...
Dou o meu melhor ao acto de espreitar.
Ainda assim; sinto no peito o vento.
Passa por mim um deserto, imenso.
E meu coração já de si retraído
ensaia um estranho gemido…
Perde-se do essencial;
num formigueiro surreal.
E o tempo concreto, não passa de um beco;
por onde as crenças vagueiam!...
Sem foz.



quarta-feira, 11 de dezembro de 2019

Todos os Natais carecem de contos...

O meu Conto de Natal quando corre o ano de 2019, na viragem para uma nova década, num já usado século XXI, não tem nada de luzente e começa assim:
Desde a partida da minha mãe, em 2018, que ando mais poupada nas palavras que aqui publico. Há três ou quatro anos que deixei de escrever contos de Natal, por achar que os existentes são suficientes, num mundo desnutrido e frugal.
Quando uma doença degenerativa nos entra em casa é que percebemos claramente a fragilidade da sociedade atual. No meu caso, sozinha, a braços com a “loucura” de uma demência vascular cerebral. Durante três longos anos, todos os meus sonhos caíram por terra, à medida que a doença e fragilidade humana tomava conta da minha casa, o desemprego foi só mais um passo, e depois do caos, no meu novo recomeçar, valeu-me a garra e os ensinamentos dos homens e mulheres rudes, do campo. No seio dos quais fui criada e amentada, foi neles que busquei a força, na sua imagem, nos rostos cravados de sofrimento e mesmo assim, com muito amor no coração.
Amor e compaixão que repartiam no pouco que tinham, sempre que lhes batia à porta, alguém que tinha ainda menos do que eles. Em criança ou na adolescência, raramente uma pessoa morria sozinha em plena solidão e abandono. Costumo afiançar que sou como os gatos, tenho sete vidas e caio sempre de pé, se precisam de mim, nunca virei a cara, mesmo que a virem, a mim. Até quando, desconheço, mas sei que um dia também eu cairei de vez e morrerei em paz, comigo mesma, sejam quais forem as condições em que isso aconteça.
Este meu novo conto de Natal pode não fazer sentido para quem acha que só acontece aos outros, que o mundo não gira, que a descida é estonteante e a nova subida, pode nunca mais acontecer. Eu consegui mas muitos não tem preparação psicológica para tal. Pode, também, nunca ser publicado em livro, mas, até, pode fazer parte de uma qualquer das minhas histórias, ou dos meus versos.
Neste meu novo Conto de Natal, o que é parte integrante dele, é uma insurreição silenciosa e que por vezes, basta um clique, para que atice em mim a necessidade de transpor em palavras cruas e desvirtuada para a época, aquilo que me aflige. O politicamente incorreto é a ferramenta de trabalho de um poeta que se preze, num país que tão maltrata os que lhes alimentam as mágoas, lhes iluminam o espirito, ou lhes apaziguam a revolta dos dias. Na maioria das vezes sem recolher dividendo algum, a não ser o breve direito a sorrir, por parte de quem lê, vê ou ouve. Nisso as redes sociais fazem milagres.
São eles, os poetas deste país, os músicos deste país, os pintores deste país, bailarinos, cantores, fadistas, os Atores deste país e tantos outros que fazem da arte passatempo. A arte em Portugal está dotada ao quase passatempo, mesmo que a tempo inteiro. Somos nós, os dotados de alguma partícula de arte, Os Bobos modernos Deste País, somos os que alimentam à conta do suor do rosto, de muitas horas de trabalho e meditação, de estudo e clausura, nos palcos mais ou menos encenados, os cordeirinhos deste país, com o brilho da arte, somos também, os que morrem sem palco, subindo ao palco na revolta da morte, quando já não carecemos desse mesmo palco.
Neste meu novo Conto de Natal sublinho de semblante carregado a vergonha em que esta quadra se transformou, as barrigas emproadas nos jantares e almoços, nos consertos e até nas ruas iluminadas. Convite ao consumo desmensurado, num país a morrer de velho, em que que a reforma é quase aos sessenta e sete anos e o rendimento mínimo é dado, em muitos casos, a pessoas com braços em condições de trabalhar, e cortado a quem dele necessita, incapacitado pela doença, desemprego, ou outra qualquer limitação prolongada.
Neste meu novo Conto de Natal sublinho que em 2019, apenas, pouco mais de um por cento do orçamento de estado foi para a cultura, que os clubes de futebol também continuaram a ser subsidiados, os teatros e os cinemas estão vazios, ou foram fechados, e os estádios continuam cheios.
Neste meu novo Conto de Natal a morte, ontem anunciada, de um Actor de sessenta e um anos, a cinco da reforma, sem trabalho e gravemente doente, que vi nos ecrãs, e morreu sem o mínimo de apoio moral, por parte de uma sociedade hipócrita, teve um peso redobrado. Sei que tinha uma filha, que a Segurança Social lhe cortou o rendimento mínimo e que deram por ele, morto, numa tenda em Sintra, junto à estação do comboio.
Neste momento esboço um sorriso esverdeado, já que o verde para além de ser a cor da esperança é também, a cor das tendas que tem alimentado as notícias e os nossos corações, complacentes, na aflição da desgraça alheia, nos últimos tempos. Tendas serão sempre abrigos precários e Jesus também nasceu na frieza de uma tenda. aqui chegada e como Cristã, dou por mim a pensar, a diginidade de morrer ou nascer no desprezo de uma tenda, é incalculavel.
Se a Senhora Ministra da Cultura, os técnicos da segurança social que cortaram o subsídio a este português, o restante governo e os nossos deputados que, perdoam dividas a banqueiros, conseguirem ir a todos os almoços e jantares, da quadra natalícia, para os quais são solicitados, sem uma ponta de pudor, Feliz Natal.


terça-feira, 10 de dezembro de 2019

Dias Risonhos...


Ando arredada e sem rumo certo.
Deixo aos dias a supremacia do sol.
Quando fecho os olhos tudo é incerto.
E a ilusão é apenas um fraco lençol.

Caminho apressada, o fim está perto.
Dizem os ecos de um negro paiol!
O amor grita em ais: nada de concreto,
a Terra é fria e carece de um alto farol.

Quanto pesa a pressa nos meus olhos…  
Se passa por mim uma criança triste.
Um velho sem sol, uma mãe sem sonhos.

Quanto pesa ao peito os feios demónios…
Sempre que afirmo que se o frio existe:
É porque me esqueci dos dias risonhos!




quinta-feira, 31 de outubro de 2019

Um momento…


Não vejas em mim o vazio.
Sou um riacho escondido no ventre da terra.
No caudal transporto mil sonhos
e nas margens a orla do pensamento inferior.
No fundo, sou um poço sem fundo!
Um tormento, um momento...
Passageiro, como efémera também pode ser a solidez
da voz. Na memória dos que não tem estuário.
Não sei de mim, mas sei que o instante flui.
Transborda e revive o impossível.
Abre alas através da corrente
onde borbulha a dor e o amor…
Em pé de igualdade!



sábado, 26 de outubro de 2019

Não...


Não me afeta o olhar que não entende.
A angústia pequenina, fria e franzina
de quem caminha sem alcançar o poente.
Não me afeta a mediocridade mesquinha.

Vivemos em tempo de vacas sagradas
embriagadas pela dormência afetiva.
Trovoada espalhada sem norte
é sinonimo de fraqueza.

Não!...
Não me afeta o azedume dos desconhecidos.
A raiva simplória dos empedernidos.
Sempre me afetará os gemidos
dos que choram sem ter voz.

Sei que não entendem pessoas como eu.
Migalhas no universo.
Invisíveis ao intelecto forjado
desacreditado na certeza absoluta.
Mesmo assim…
Somos o que resta ao vento.
A capacidade de provocar lágrimas e sorrisos
desdém e crueldade.
Amor pelo prazer de dar.
E tudo isto:
É a certeza de que o caminho
É este.

26-10-2019




quinta-feira, 24 de outubro de 2019

Versos ao sabor dos dias...


Tanto faz…

Sinto que sou um vidro transparente!...
Se morresse nesta hora invisível
só uma pequena pedra choraria.
De que serve o saber
se afastado do ignorante.
De que serve o amor
na falta de quem o sente.

Um vidro, um pequeno vidro transparente
ao sabor dos tempos.
Perdido ou esquecido…
Tanto faz.

À falta de quem a sente!

💔

 Gosto…

Gosto de ouvir coisas pequenas
aos olhos de quem os tem.
De pensar coisas inúteis
aos olhos cegos.
De rir mesmo com vontade de chorar.
De olhar o impossível.
De acreditar
num dia mesquinho.

Gosto… como se gostar fizesse algum sentido
às palavras que não ouves.
Aos sorrisos que não tens.
Aos passos que te negam.

💔

Sei isto tudo…

Sou ermita, trancada numa redoma quadrada
quando as redomas devem ser redondas
aos olhos do possível.
Sou impossível ao concreto.
Insubordinada às certezas
de um figurino incompleto.

Sei que me olham e me sentem com estranheza
propicia ao julgamento sem conhecimento.
Sei que o mundo é cruel.
O ciúme, carniceiro
e a hipocrisia é sinal dos tempos.

Sei isto tudo e mesmo assim consigo sorrir!
Ao contrário dos que negam saber as evidencias
mesmo que o espelho as grite todas as manhãs.

Sei isto tudo e nada sei ao acordar.
Se o sol teima em nascer, em aquecer
um mundo frio e desnutrido.



quinta-feira, 17 de outubro de 2019

Não é preciso...


Não é preciso olhar a lua para saber sorrir!...
Nem pressentir as estrelas por entre as sombras.
É preciso saber sonhar.
Sentir que caiu e voltar a andar…

É preciso!...
Claro que é preciso procurar a magia
de uma noite escura.
Procurar o amor num campo minado.
Olhar o futuro…
Reconhecer no murmurar do vento
a voz da mudança.

Não é preciso olhar os dias
com amargura.
Fingir que não sente.
Sentir-se dormente.
É preciso acreditar
só pela certeza de acreditar.

Que um dia após a tormenta
o sol voltará a brilhar!



Esse Maio!...

Há um Maio em sepulcros imaginados A vitória espelhada nas solas de sapatos rotos Que diz a história das ilusões desgrenhas Das vitó...