quinta-feira, 31 de outubro de 2019

Um momento…


Não vejas em mim o vazio.
Sou um riacho escondido no ventre da terra.
No caudal transporto mil sonhos
e nas margens a orla do pensamento inferior.
No fundo, sou um poço sem fundo!
Um tormento, um momento...
Passageiro, como efémera também pode ser a solidez
da voz. Na memória dos que não tem estuário.
Não sei de mim, mas sei que o instante flui.
Transborda e revive o impossível.
Abre alas através da corrente
onde borbulha a dor e o amor…
Em pé de igualdade!



sábado, 26 de outubro de 2019

Não...


Não me afeta o olhar que não entende.
A angústia pequenina, fria e franzina
de quem caminha sem alcançar o poente.
Não me afeta a mediocridade mesquinha.

Vivemos em tempo de vacas sagradas
embriagadas pela dormência afetiva.
Trovoada espalhada sem norte
é sinonimo de fraqueza.

Não!...
Não me afeta o azedume dos desconhecidos.
A raiva simplória dos empedernidos.
Sempre me afetará os gemidos
dos que choram sem ter voz.

Sei que não entendem pessoas como eu.
Migalhas no universo.
Invisíveis ao intelecto forjado
desacreditado na certeza absoluta.
Mesmo assim…
Somos o que resta ao vento.
A capacidade de provocar lágrimas e sorrisos
desdém e crueldade.
Amor pelo prazer de dar.
E tudo isto:
É a certeza de que o caminho
É este.

26-10-2019




quinta-feira, 24 de outubro de 2019

Versos ao sabor dos dias...


Tanto faz…

Sinto que sou um vidro transparente!...
Se morresse nesta hora invisível
só uma pequena pedra choraria.
De que serve o saber
se afastado do ignorante.
De que serve o amor
na falta de quem o sente.

Um vidro, um pequeno vidro transparente
ao sabor dos tempos.
Perdido ou esquecido…
Tanto faz.

À falta de quem a sente!

💔

 Gosto…

Gosto de ouvir coisas pequenas
aos olhos de quem os tem.
De pensar coisas inúteis
aos olhos cegos.
De rir mesmo com vontade de chorar.
De olhar o impossível.
De acreditar
num dia mesquinho.

Gosto… como se gostar fizesse algum sentido
às palavras que não ouves.
Aos sorrisos que não tens.
Aos passos que te negam.

💔

Sei isto tudo…

Sou ermita, trancada numa redoma quadrada
quando as redomas devem ser redondas
aos olhos do possível.
Sou impossível ao concreto.
Insubordinada às certezas
de um figurino incompleto.

Sei que me olham e me sentem com estranheza
propicia ao julgamento sem conhecimento.
Sei que o mundo é cruel.
O ciúme, carniceiro
e a hipocrisia é sinal dos tempos.

Sei isto tudo e mesmo assim consigo sorrir!
Ao contrário dos que negam saber as evidencias
mesmo que o espelho as grite todas as manhãs.

Sei isto tudo e nada sei ao acordar.
Se o sol teima em nascer, em aquecer
um mundo frio e desnutrido.



quinta-feira, 17 de outubro de 2019

Não é preciso...


Não é preciso olhar a lua para saber sorrir!...
Nem pressentir as estrelas por entre as sombras.
É preciso saber sonhar.
Sentir que caiu e voltar a andar…

É preciso!...
Claro que é preciso procurar a magia
de uma noite escura.
Procurar o amor num campo minado.
Olhar o futuro…
Reconhecer no murmurar do vento
a voz da mudança.

Não é preciso olhar os dias
com amargura.
Fingir que não sente.
Sentir-se dormente.
É preciso acreditar
só pela certeza de acreditar.

Que um dia após a tormenta
o sol voltará a brilhar!



Desculpem...


Queria não pensar que o mundo é cruel.
Os dias são carreiros de formigas sem rosto.
A muleta simplista é a cegueira instituída.
O furor em torno do vulgar!

Desculpem; os que acham que a matéria
não é invariante.
Que a acomodação não é instável,
ou que os olhos são simplistas.

Desculpem.
O mundo avança e os cegos
numa cegueira convincente
tomaram conta do caos.



quarta-feira, 16 de outubro de 2019

Muralha onde tranco o coração...


Sim!...
Sei que perguntas à noite
se a saudade que me assola
é o toque do teu rosto.

Sim!...
Sei que a resposta é evasiva
é a paz que transporto
no meu peito.

Sim!...
Sei que o tempo não perdoa
aos imperfeitos.
Que a morte é a sombra
o desejo a clareia
e a mente a muralha…

Onde tranco o coração!



terça-feira, 15 de outubro de 2019

Tão pouco sei...

Se eu pudesse olhar o horizonte, sem vazio…
Sei que o plano de fundo é ilusão
os sorrisos podem ser de ocasião.
O sentir que não passa trespassa o frio
em que o olhar se afogou.

Sei!... E tao pouco sei.
Nem sei se a verdade é minha, ou tua.
Se a vontade é verbo, ou sinónimo.
Se o tempo é fragata
os dias Demónio.
Sei com fervor
que do sono incolor
nasce a uma nova Viragem.



quinta-feira, 12 de setembro de 2019

A curva...


O instante pode omitir a Liberdade
a fraternidade não passe de Lembrança
e o Sonho do homem só seja vaidade.
Enquanto nascer uma Criança
ainda há Esperança de bondade.

Talvez a morte seja só a Passagem
a sorte seja a Força de vontade
e as pedras da ladeira, Miragem.
Talvez os Irmãos sejam isso, mesmo
o tempo seja Bandeira desfraldada
o pensamento altar Iluminado
e a guerra do mundo… Apagada.

Talvez a Rocha seja o cerne
A visão a Luminária
E o poeta seja, Errante.
Mesmo assim, os Versos são a catenária
A Curva invisível mas flagrante
Que se ergue no Delubro da palavra.


sexta-feira, 6 de setembro de 2019

Setembro...


Olho em redor e prevejo o deserto
de um dia de inferno.
As evidências dizem: estás louca!...
O calor de setembro é prenúncio de verão
o sol que sorri é vitória certa
numa tarde sem fim.

Olho em redor e adivinho o vazio.
O frio pertinente, a chuva que falta…
O vento no meu rosto!

Enquanto este calor infernal
se assemelha a agosto.

sexta-feira, 30 de agosto de 2019

Uma borboleta de asas azuis...


Gosto de ficar no silêncio de uma casa vazia.
Pinto as paredes com cores alegres e vistosas
no teto desenho uma borboleta de asas azuis
no chão pintalgo os sonhos, invento o amor.
Desnudo as janelas e dos vidros transparentes
arquiteto a claraboia para o futuro.

Gosto!... Sim gosto.
Da calma de uma tarde de verão
de inventar os passos no corredor.
Os risos na sala ao lado
e o teu rosto na frieza do vazio.

Talvez me aches doida!
Como se doida não fosse a distância
e o deserto não fosse o sentimento
sem aceitação.




quinta-feira, 22 de agosto de 2019

Raiz quadrada...



Talvez me ache a raiz quadrada
do tempo presente, sem tempo marcado.
Talvez me aches a multiplicação
de um caso falhado.
Talvez me sinta vazia por dentro
no centro peado, no oco gerado
de um caso tramado.
Talvez me vejas na projeção
de um desejo apagado.
Talvez eu seja o reflexo difuso
da tua mente
o desejo obscuro da incerteza
a vertigem escondida
o caminho perdido
a fonte sem vida.

Não!...
Sou a estrela mais pequena do universo
o calor de agosto
o luar de janeiro.
Sou o vento a bailar nas cearas
o suor do rosto, o som da água.
Sou o moinho e a Mós
a lonjura alentejana
num choro de mulher.
As cigarras.
as formigas no carreiro
o sobreiro.
Sou o povo e sou do povo
sou das gentes
sou da terra.
Sou da guerra sem ter armas
sou Palavra e o teu pior pesadelo…
São os genes da Palavra.



Um momento…

Não vejas em mim o vazio. Sou um riacho escondido no ventre da terra. No caudal transporto mil sonhos e nas margens a orla do pensa...